
Você conseguiria imaginar que Catherine Deneuve, uma das grandes divas do cinema, filmes de Truffaut, Luis Buñuel e Lars von Trier, entre outros importantes diretores, no currículo, poderia declarar que sim, já sentiu-se uma mulher-objeto? "Todo mundo acaba sendo um objeto alguma vez na vida, estando ao lado de alguém a quem não se pode manifestar suas opiniões. Isso acontece inclusive com os homens. Há muitos que só servem de decoração para suas mulheres", disse. A direta revelação foi feita por ela nesta quarta-feira (8), em São Paulo, durante entrevista para divulgar seu mais recente trabalho, "Potiche: esposa troféu".
O filme, dirigido por François Ozon (de "8 Mulheres", também com Catherine no elenco), faz parte da 2ª edição do Festival Varilux de Cinema Francês, em cartaz até o dia 16 de junho em 22 cidades brasileiras. A mostra reúne dez filmes franceses inéditos com atrizes como Deneuve, Audrey Tatou e Sandrine Bonnaire, que também ganha uma homenagem em forma de retrospectiva de seu trabalho.
No longa de Ozon, Catherine é Suzanne Pujol, a esposa troféu de Robert Pujol, marido machista e contaminado por ideias reacionárias, explícitas especialmente em sua maneira de dirigir a fábrica de guarda-chuvas fundada por seu sogro. Ao menos, é assim que podemos apresentar Suzanne até o momento em que seu marido adoece e os operários da fábrica ameaçam uma grande greve.

CATHERINE COMO SUZANNE PUJOL, A ESPOSA SUBMISSA QUE ACABA PROMOVENDO UMA REVOLUÇÃO NA FAMÍLIA E TAMBÉM NOS NEGÓCIOS DA FAMÍLIA
A partir daí, ela, para a surpresa de todos, acaba assumindo o comando do negócio. O que vemos a seguir é o desenrolar de um enredo cheio de reviravoltas que atingem também a família e repleto de espirituosos diálogos, como quando Suzanne justifica a inaquedada escolha por usar suas melhores joias ao ir ao encontro dos furiosos operários: "eu as tenho graças ao trabalho deles. É justo compartilhar", diz, levando os espectadores a boas risadas. A história passa-se no fim dos anos 70, quando as mulheres estavam entrando no mercado de trabalho, e a fita pode ser considerada um divertido manifesto feminista.
Em sua passagem pelo Brasil, Catherine Deneuve falou ainda sobre seu reencontro com Gérard Depardieu nas telas (também no elenco de "Potiche") -- "foi uma alegria. A cena em que dançamos na discoteca é comovente" -- e a relação com a filha, Chiara Mastroianni, que classifica como ótima.
Ainda belíssima aos 67 anos, ela, com franqueza ímpar, foi novamente bem direta ao revelar seus segredos de beleza: "meu maior segredo é a genética. Tenho sorte de ter uma mãe que, embora idosa, ainda continua muito bonita. Mas também me protego do sol, tomo bastante água e como legumes cozidos. Só não deixo minha vida se restringir a isso", contou, entre um trago e outro -- sem pudores, Catherine fumou dois cigarros durante a pouco mais de meia hora com os jornalistas, em hotel da capital paulista, cidade adepta da lei anti-fumo, que proíbe o ato em ambientes fechados.
A programação completa do Festival Varilux de Cinema Francês está aqui. "Potiche: esposa troféu" entrará em cartaz em circuito comercial no dia 24 de junho.