A primeira vez que vi Bruna Mascarenhas foi na tela do meu computador, assistindo à série "Sintonia", produção da Netflix idealizada por KondZilla em parceria com Guilherme Quintella e Felipe Braga. A identificação com a sua personagem, Rita, foi imediata... Aquele jeitinho independente, meio irreverente e muito humano de ser tem um quê acessível. E não fui só eu quem sentiu isso. "Muitas pessoas me dão esse feedback: 'a vida da Rita é a minha história. A vida do Doni é a história do meu vizinho'".
Alguns dias depois, coincidentemente, a vi em uma festa de rua na Zona Oeste de São Paulo. Bem ~gente como a gente~, sem maquiagem, ao lado de alguns amigos, Bruna papeava e se divertia como uma garota normal da sua idade.
Poucas semanas depois, tive a oportunidade de entrevistá-la para a Glamour. A atriz carioca, de 23 apenas anos, compartilhou durante um papo sincero como foi o início dessa vivência repentina como atriz de série, sua nova vida em São Paulo, namoro, fama e a importância da série estar em uma plataforma com alcance mundial.
"É muito importante dar voz às pessoas que estão sendo silenciadas, ainda mais nesse momento atual. A gente reclama muito no Brasil, mas o que realmente a gente conhece? O que sabemos de fato? A gente tem empatia para olhar para o outro ou queremos apenas mudanças individuais? 'Sintonia' mudou a bolha e chegou em lugares que nunca olhariam para esse lado da história, que não fazem a mínima ideia de como é a vida de um paulista da 'quebrada', que rala e vende coisa na rua", pondera Bruna.
Leia abaixo a entrevista na íntegra:

GLAMOUR: Bru, como foi o início da sua carreira?
BM: "Nasci em Niterói, no Rio de Janeiro. Moro oficialmente em São Paulo há mais de um ano. Fiz ballet clássico por 14 anos. Aos 16, entrei para o teatro, que era o meu grande sonho. Comecei no ramo o musical e depois cursei a faculdade de Artes Cênicas na Casa das Artes de Laranjeiras, a CAL. Em paralelo, ingressei em uma companhia de teatro que foi muito importante para o meu crescimento espiritual. Foi lá onde descobri muito sobre mim e fiz de tudo um pouco: comecei como atriz e acabei virando assistente de direção e produção.
Depois da vivência na companhia, montei um coletivo e uma peça com mais três amigos. No mesmo momento, comecei a trabalhar na prefeitura de Maricá... Viver apenas de teatro é impossível. Teve uma época da minha vida em que eu fazia 4 viagens no mesmo dia porque precisava de dinheiro para pagar meus cursos e as minhas peças.
GLAMOUR: Você teve muito pouco tempo para se preparar para o papel em "Sintonia". Como foi esse processo? O que passou na sua cabeça?
BM: Tem uma amiga que até brinca que eu dei 'nó em água'. “Nossa Bruna, você chegou mega carioca e em apenas duas semanas virou paulista real”, ela me questinou esses dias. E foi assim mesmo! Em uma quinta-feira descobri que havia passado no teste para o papel e na sexta já estava no meu último dia de trabalho em um restaurante e iniciando a fonoaudióloga. Fiquei muito tensa, era uma pressão estar na Netflix. Eu mesma botei uma pressão muito grande, mas descobri nesse momento também que amo desafios. É o que me move! Descobri que a insegurança pode ser canalizada de uma forma muito positiva, mas às vezes também ela pode te paralisar.
GLAMOUR: Qual a principal lição que você aprendeu com a Ritinha e que você quer levar para a vida?
BM: Eu e Ritinha temos famílias diferentes — eu venho de uma muito estruturada, por exemplo. Mas, também temos muitas coisas em comum quando pensamos nesse lugar da garra, de querer as coisas e fazer. Aprendi com a Rita sobre abraçar as responsabilidades. No início da série, ela não consegue ver a responsabilidades de suas ações na vida de uma outra pessoa. Percebi como é difícil, como ser humano, entender a nossa responsabilidade principalmente quando afeta o outro. Mas eu não trabalho com a culpa também. Acho que ela só atrasa. Quando temos responsabilidade, temos mais empatia.
GLAMOUR: Sua vida mudou muito depois de ganhar 1 milhão de seguidores? Quais as maiores diferenças?
BM: Senti um baque, sim! Não imaginava que em um mês eu teria 1 milhão de seguidores no Instagram. Eu tinha três mil no início.... Fiquei em choque. Na academia, no Uber, as pessoas me reconhecem. É tudo muito novo e, ao mesmo tempo, há uma tensão. Às vezes, posso estar no telefone dentro do táxi em uma conversa superíntima e já não me sinto mais à vontade, tenho que tomar um cuidado. Estou aprendendo a me posicionar e a aprender como esse universo funciona.
Hoje em dia eu ganho presentes, vou em restaurantes sem pagar... Claro que a minha vida mudou, mas ao mesmo tempo continuo a mesma pessoa. É uma dualidade pra mim. Uma vez fui em um mercado mais barato e as pessoas ficaram chocadas: 'nossa, o que você está fazendo aqui?'. Eu não sabia o que responder. As pessoas endeusam esse lugar da fama e dos seguidores.

GLAMOUR: Teve alguma cena que você amou interpretar?
BM: A cena mais emocionante foi aquela que a Ritinha está com o Nando e o Doni na sacada olhando para São Paulo. Era o último dia de gravação dos meninos e estava no final das minhas cenas também. Estávamos todos muito emotivos. Foi muito linda a representatividade daquele momento — três meninos jovens, da periferia, olhando para um dos prédios mais ricos de SP. Foi também um momento de muita intimidade. Antes de começar a cena, eu já tinha chorado várias vezes. Uma hora só ficamos em silêncio ouvindo os barulhos da cidade. Foi muito simbólica e um dia muito bonito para nossa amizade.
GLAMOUR: E qual foi a maior dificuldade durante as gravações?
BM: Acho que foi a insegurança durante as gravações da série. Durante a gravação da cena do primeiro episódio, quando a Ritinha está vendendo nas ruas de SP, eu estava muito tensa. Era um mundo novo para mim. Mas, no final do dia , eu pensei: 'nossa que delícia, me deixaram tão à vontade'. Esses momentos só me mostraram como a insegurança é boa, faz parte, mas que também não pode atrapalhar. Quando você está ali é para se divertir. Se não, qual a graça? Por mais séria que seja a cena... Se você está contracenando e se julgando, já era, vai entregar. Aprendi a entender esse nervosismo e essa insegurança como uma coisa boa.
GLAMOUR: Como foi a sua mudança para São Paulo? Já está acostumada?
BM: Estou apaixonada pela cidade. Aqui tem muita opção e ainda fico chocada de como ela é grande. A qualquer hora tem de tudo para fazer. Além de que construi amizades incríveis por aqui. Estou também namorando um músico paulista. Lembro que quando eu cheguei eu falei: 'olha, nunca vou me atrair por um paulista'... E agora estou apaixonadíssima por um. Aqui tem muita possibilidade. Fiz muito mais testes para a TV aqui do que no Rio de Janeiro. Em São Paulo é mais possível pagar as contas com a arte. Pretendo ficar aqui por um bom tempo!
GLAMOUR: Quais são seus planos para o futuro?
BM: Tenho vontade de fazer de tudo — quero me jogar em filmes, séries e novelas. Sou nova e estou com gás! No momento, estou louca para me jogar no cinema nacional. Estou também ensaiando uma peça de poemas, uma coisa mais experimental. Sinto falta dos processos do teatro.
