
A relação entre Demi Lovato e Brasil é, sobretudo, de cumplicidade. A americana já nos visitou mais de dez vezes e o país é o segundo no mundo que mais recebeu suas apresentações, atrás apenas de sua terra natal. Sua presença no lineup deste sábado, 12, de Rock in Rio pareceu determinante para ajudar a esgotar os ingressos tão rapidamente.
O Brasil também testemunhou mudanças importantes na carreira de Demi. Por exemplo, quando voltou ao festival carioca, em 2022, a cantora ofereceu ao público uma de suas diversas metamorfoses, talvez a mais drástica: a “fase rock”, ancorada pelo então recente álbum Holy Fvck. Curiosamente, o que se viu no sábado, 12, foi uma movimentação contrária a nível artístico, pois a artista retornou ao pop dançante e de temática leve com It’s Not That Deep, seu disco de 2025, e ignorou por completo o trabalho anterior.
Reinvenção (ou tentativa disso) é a tônica da vida adulta de Demi, hoje com 34 anos de idade. Pop dançante, rock à la pop punk, canções em pegada de baladinha R&B, composições profundas sobre seus problemas pessoais… tem pra todo gosto, ainda que o repertório atual não apresente tudo isso. Nem precisa ser tão completo assim. Menos ainda conceitual. O título “it’s not that deep” (“não é tão profundo”) reflete justamente a intenção de, agora, não precisar carregar um peso tão grande em uma nova era. É só música.
It’s Not That Deep, aliás, contribui com metade do setlist: dez das vinte músicas vêm do bom, mas não ótimo disco atual. Movimentação corajosa e abraçada por um público fiel. Do álbum em questão — apesar da sensação ruim de ouvir Demi cantar ao vivo em cima de sua própria voz pré-gravada —, destacam-se não mais que a abertura “Fast” (emendada com as menos inspiradas “Kiss” e “Frequency”), a sensual “Say It”, a oitentista “Here All Night” e a balada “Ghost”, inspirada em seu marido, Jordan “Jutes” Lutes.
Nas power ballads, diga-se, Lovato oferece os melhores momentos de sua apresentação, a exemplo de “Skyscraper” e “Stone Cold”, recordista de aplausos. Em ambas, desfila seu poderio vocal para delírio dos fãs e de seus leques. Nas faixas mais animadas, mas com vocalizações típicas do R&B, como “Heart Attack” e “Sorry Not Sorry”, também encanta. Não se trata de saudosismo: este é realmente o território mais confortável para a artista; nessas, importante ressaltar, normalmente ouve-se sua voz toda ao vivo, sem suas próprias camas de apoio.
Por vezes, tudo que precisamos é de conforto. Até artistas, sempre cobrados para se desafiarem, necessitam disso. Demi parece buscar tal comodidade no momento, seja por ter lançado um álbum genuinamente pop, voltado a se apresentar no Brasil (ela lembrou o público que aquele era seu 28º show por aqui) ou trazido Pabllo Vittar, ícone nacional, para participar do número final da noite, “Cool for the Summer”. A depender das reações calorosas vistas no Rock in Rio, dá para cravar que a americana descobriu, enfim, seu lar. Volte sempre.
Setlist:
1. Fast
2. Kiss
3. Frequency
4. Heart Attack
5. Tell Me You Love Me
6. Confident
7. Low Rise Jeans
8. Fantasy
9. Solo (originalmente parceria com Clean Bandit)
10. Skyscraper
11. Give Your Heart a Break
12. Say It
13. Little Bit
14. Ghost
15. Here All Night
16. Stone Cold
17. Sorry Not Sorry
18. Really Don’t Care
19. Sorry to Myself
20. Cool for the Summer
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