O tom natural do cabelo é castanho e sua primeira profissão foi a de professora primária. Hoje, os fios deVivienne Westwood são inteiramente brancos, mas coloridos com a hena num tom vermelho-fogo inconfundível. Filha de operária e sapateiro, a estilista britânica, que completou 70 anos de idade em abril deste ano, lembra tanto Londres quanto os ônibus de dois andares ou o Palácio de Buckingham. Nascida numa cidadezinha próxima a Manchester, tem sua vida confundida com a história da moda britânica e as raízes do movimento punk.
Há 40 anos, desde que a lendária boutique "Let it Rock" abriu suas portas, no número 430 da Kings Road, em Londres, Vivienne fez do anarquismo um sucesso no mainstream. O mesmo endereço, dividido com o então marido Malcolm McLaren, manager do Sex Pistols, foi rebatizado anos depois de "Too Fast to Live, Too Young to Die". Mais tarde, ganhou apelo fetichista e o nome de Sex. Em seguida, a meca da geração punk-rock virou "Seditionaries". E, por fim, com o colapso do Sex Pistols em 1980, o espaço conquistou o quinto nome que tem e leva até hoje: "World’s End".

O que aparentemente seria o “final do mundo” foi apenas um recomeço. Ainda na década de 80, em parceria com McLaren, Vivienne apresentou uma das coleções mais fortes de sua carreira, batizada de "Piratas" e inspirada nos indígenas norte-americanos. Dali pra cá, colecionou feitos para moda: fez da lingerie roupa principal, deixou a plataforma ainda mais alta e colocou o erotismo na passarela, quando em 1994 seus modelos desfilaram com os bumbuns à mostra. Acrescentou ao apelido de primeira-dama do punk o título de honra concedido pela rainha da Inglaterra. Criou o perfume Boudoir, deu cara nova às sandálias Melissa e nunca mais parou de produzir novidades. A última delas, uma linha de alta joalheria feita em colaboração com a Palladium Alliance, com peças que misturam símbolos pagãos e metais raros.
Mesmo sendo uma das estilistas mais importantes do século - ganhou o prêmio como designer do ano da Grã-Bretanha em 1990 e 1991, além de ter sido nomeada membro de honra da Royal College of Art - Dame Westwood combate como uma rebelde o consumismo exagerado. Chegou a dizer em 2007: “Se você tem dinheiro para comprar roupas, compre-as de mim. Mas não compre muito.” Ainda assim mantém quatro linhas sob seu cunho criativo: a semi-couture Gold Label, a prêt-à-porter Red Label, a masculina Westwood Man e a diffusion Anglomania. Vivienne não segue regras, cria suas próprias. Busca inspiração e transita pelo submundo, mas as causas politicamente corretas estão sempre no foco, como os manifestos que escreve para alertar o mundo sobre as mudanças climáticas e a devastação da Amazônia. E hoje o preto, o vermelho e as peças destroyed, tão características de sua moda, dividem a cena com acessórios com mensagens como “respeite o planeta”.
Vivienne não gosta de arquitetura moderna e considera Matisse o último grande artista que se tem notícias. Avessa a televisão ou jornais, é mãe de dois filhos e avó. Joseph Corré, o segundo dos seus filhos, fundou a famosa marca de lingerie Agent Provocateur, morou por 30 anos em um conjunto habitacional e só depois do seu último casamento, com o estilista Andreas Kronthaler, mudou-se para uma enorme casa.
Com a propriedade de quem viveu o movimento punk, Vivienne segue contestadora. Acha a geração atual conformista e diz que ela não sabe tirar proveito das duas principais funções da moda: diversão e expressão. Sempre polêmica, durante a última edição da London Fashion Week, disparou que só desenharia o vestido de noiva da futura rainha da Inglaterra, Kate Middleton, se ela tivesse mais estilo. Qualidade que, para Vivienne Westwood, parece não faltar em nada.