
As cores e os efeitos da fotografia analógica fazem atualmente uma guerrilha silenciosa. Procure por ela e verá, em perfis de Facebook e páginas de Flickr, vermelhos estourados e sobreposições divertidas. As cenas retratadas deixam escapar o segredo dessa moda de inversão tecnológica: a surpresa. Em 2011, é divertido não saber o que virá no envelope do laboratório.
A mania é tão grande que a Lomography, fabricante das câmeras que capitaneiam o movimento, vendeu 500 mil produtos em 2010. Os modelos da marca rendem efeitos inesperados, como contrastes exagerados e cores saturadas. E os exemplos dessa estética não param de se multiplicar. Nesta quinta-feira (17), uma exposição apenas com fotografias Lomo entra em cartaz em Campinas (SP) (veja abaixo).
A empresa surgiu no início dos anos 90, depois que dois amigos descobriram e se encantaram por uma Lomo LC-A, fabricada, na época, por uma empresa de vidros óticos russa. Após importar as câmeras para a Áustria por alguns anos, a dupla conseguiu o direito de fabricá-las, pois a matriz original deixaria de fazê-lo. Foi o pontapé inicial para dezenas de lançamentos inspirados em modelos clássicos, nem todos russos. “A Diana, por exemplo, é inspirada em uma câmera usada por Andy Warhol”, diz Filipa Richter Bocchi, gerente geral da Lomography no Brasil. A empresa decidiu abrir um braço no país depois de ver o sucesso da modalidade entre os brasileiros. “Oito anos atrás já existia um buchicho aqui”, diz Philippe Machado, gerente da única loja-galeria no Brasil, que fica no Rio de Janeiro. Até o fim do ano, São Paulo deve receber a sua.

Mas por que câmeras imperfeitas como as Lomo caíram nas graças de fotógrafos e amadores? Para o designer argentino Leonardo Uehara, 30, que participa da mostra de Campinas, a mudança para o analógico trouxe um novo sopro de interesse pela fotografia. “(Com a Lomo) tudo é novo e tive de começar praticamente do zero. Tive que aprender muito mais sobre técnicas de exposição, revelação e sobre o que considero mais interessante na lomografia: o processo cruzado (em que um filme slide é revelado como um filme colorido, o que sobressatura as cores)”, diz. Ele começou a fotografar com Lomos em 2009 e diz ainda se sentir atraído pela imprevisibilidade. “No meu trabalho o processo é completamente inverso: uma imagem se constrói a partir de um conceito definido de antemão”, afirma.

Entre os profissionais, há quem abrace essa composição peculiar como opção artística. “A estética Lomo foi, de certa maneira, o que me levou a um tipo de foto que faço hoje”, diz a fotógrafa Charlene Cabral, 29 anos, brasileira radicada em Barcelona há 6. Por causa da Diana+, um modelo de médio formato, ela iniciou o seu projeto “Serie B”, no qual fotografa pessoas em momento de lazer. “A ideia partiu de experimentos com a Diana+”, afirma. Para Charlene, que já participou de mostras de lomografia em Madri e Barcelona, outra vantagem das câmeras analógicas é a discrição: “podia passar despercebida, já que a Diana + parece uma câmera de brinquedo”.

Mas se formato e tecnologia manual têm o seu apelo, as distorções são as queridinhas entre as qualidades apontadas por usuários das Lomo. “O que me atraiu no início é o que acho que atrai à maioria das pessoas para a Lomo: basicamente, a capacidade de ‘efeitismo’ que essas fotos têm. Elas são divertidas e podem fazer qualquer indivíduo leigo em fotografia parecer mais artístico”, diz Charlene. “Só que esses efeitos rapidamente enjoam, então é quando, na minha opinião, a relação com a Lomo fica mais interessante”.

O espírito de brincadeira é uma das apostas da marca na sua expansão mundial. “A ideia é se comunicar através de uma foto com poucos recursos. É uma câmera para se divertir”, afirma Philippe Machado, da loja do Rio. A prova de que ideia está dando certo é que compartilhar os cliques virtualmente é um gesto intimamente ligado à experiência analógica de usar a Lomo. No Facebook, a comunidade internacional da Lomography tem hoje 242.680 pessoas, e a brasileira, 2.198. Além da presença na internet, a aura jovem da empresa é reforçada com as festas "pós-praia" oferecidas no espaço carioca.

Ancorada no “tsunami” que é revival do design retrô, a estética das câmeras analógicas inspirou também aplicativos de telefone que transformam imagens feitas com celular. O Instagram, criado pelo brasileiro Mike Krieger, é o exemplo mais bem-sucedido da nova onda. Segundo a revista Época, 100 mil novos usuários aderem ao programa a cada semana.

Empolgou?
Então veja as dicas para um começo sem tropeços pelo mundo analógico:
CHARLENE CABRAL, 29 anos, fotógrafa
http://dosmesphoto.com/
http://www.flickr.com/photos/violetavita/
1) Se fotografar sem flash, dispare apenas com bastante luz. Use, preferência, filmes ISO 400 para garantir que a foto saia e se veja algo. Deve-se ter em conta que a maioria das Lomos são câmeras simples, ou seja, melhor não exigir demais delas.
2) Usar filmes Chromo revelados como negativos gera bastantes efeitos de cor e saturação, o que normalmente impressiona quem não está acostumado a essa estética. É linda e eu recomendo.
PHILIPPE MACHADO, 33 anos, fotógrafo e gerente da loja-galeria Lomography, no Rio de Janeiro
http://www.lomography.com.br/homes/philippe_machado
3) No início, mande escanear o filme ao invés de pedir a impressão de todas as fotos. Assim você consegue ver o resultado, postar e escolher as que quiser em papel. Hoje em dia as pessoas estão muito caseiras, fazem fotos dentro de casa e às vezes não sai nada. As câmeras gostam muito de luz e, para qualquer lugar fora do sol, indicamos o uso de flash.
LEONARDO UEHARA, 30 anos, designer e fotógrafo
http://www.flickr.com/photos/leonardouehara
http://leonardouehara.com
4) Acho que o essencial é se divertir. Eu tento manter a curiosidade viva e ser criterioso na hora de escolher o que é interessante. Ainda hoje, pouco mais de um ano depois de ter entrado em cheio na fotografia analógica, resgato duas ou três fotos de um rolo de 36, pois nem tudo o que sai da minha câmera vale a pena.
Vá lá:
Cenários análogos, uma exposição lomográfica
De 17 de fev. a 10 de julho de 2011
Galeria 11.16
Rua Doutor Emílio Ribas, 1.058 - Campinas (SP)
Seg. a sexta, das 10h às 20h; sáb., das 10h às 18h
Telefone: (19) 3324-8188
Lomography Gallery Store
Rua Visconde de Pirajá 437, Sobreloja 201 - Rio de Janeiro (RJ)
Seg. a sex.: 11h às 20h; sáb.: 11h às 16h
Telefone: (21) 2267-2226